O Cheiro do café pela manhã
03/10/2025 22:44 - Postado em Crônicas por Ghigo Medievo.
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Lá em casa, quando eu era criança, antes mesmo do sol aparecer, a cozinha já tinha vida. O som de minha mãe cantarolando, baixinho, alguma canção quebrava o silêncio da aurora que começava despontar. Em seguida, vinha aquele cheiro que impregnava o ar: o café estava sendo coado! Junto com esse cheiro, que já era maravilhoso, somava-se ainda o cheiro de pão que tornava a experiência olfativa ainda mais especial. Não era fácil permanecer inerte na cama com tantos odores tentadores. Não dava para resistir... O dia começava e convidava a gente a viver!
Por influência de minha mãe, sempre gostei de café. Sobretudo, do seu cheiro quando torrado — e aqui preciso me lembrar de minha querida vó que torrava o café no quintal e ainda deixava a gente passar pelo moedor —, bem como do cheiro dele sendo coado! Esses cheiros ainda hoje me fascinam!
Ainda hoje, percebo a luz do sol entrar pelas frestas de cada ângulo do quarto. E eu me reporto à nossa casa e de como ia adquirindo, junto com o cheiro inebriante do café, cada vez mais espaço na casa.
Eu me levantava e sentava à mesa já posta, na simplicidade daquilo que tínhamos. E, para mim, ainda hoje gosto da simplicidade desse momento.
Minha mãe, pequena em estatura, mas grande em muitas outras virtudes, derramava o café escuro em nossos copos. Ainda sinto o vapor entrar pelas narinas... Junto também tinha o pão: por vezes, uma baguete — que chamávamos de "pão bengala" — e por outras um delicioso pão caseiro, assado e quentinho, que fazia a manteiga derreter... e a experiência se tornava ainda mais sublime!
As coisas pareciam não ter pressa. Tudo naquele simples café era saboreado como se fosse com gosto do que é eterno! Cada sabor, cada barulho, como o tilintar da colher no copo de café, da faca raspando a manteiga e passando pelo pão... Tudo tinha seu tempo, e não tinham pressa de acontecer, porque cada detalhe era como que uma sinfonia discreta que tinha vida, ainda antes de o dia começar de verdade.
Hoje tomo meu café geralmente sozinho, em uma copa com uma mesa enorme, contrária àquela mesa pequena lá de casa, mas que era enorme em tantos outros sentidos. O pão já não é mais o de outrora... Não há mais o aroma daquele pão quentinho assado no forno. Não há mais a visão da manteiga se derretendo no pão... Mas, pelo menos isso, o cheiro do café permanece!
O cheiro do café da manhã é um milagre cotidiano. Ele toca todos os sentidos, devolve rostos e gestos que julgávamos perdidos, e transforma o simples ato de comer em celebração da vida. Percebo que o passado nunca nos abandona totalmente. Ele se instala dentro de nós, em aromas, cores, sons, texturas e sabores, lembrando que cada manhã é uma nova promessa. Enquanto houver vapor subindo de uma xícara, enquanto houver aroma no ar, haverá esperança — e a vida sempre poderá recomeçar.
* Em memória à minha mãe, Marta de Fátima.