O Quintal que não existe mais!

03/10/2025 22:08 - Postado em Crônicas por Ghigo Medievo.
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O Quintal que não existe mais!

Tempo faz, peguei o carro, estava em um dia de folga, e fui até a rua em que passei meus primeiros 10 anos... Foi impactante porque não consegui reconhecer as casas. Casas essas que não possuíam muros tão altos, portões tão fechados... Tudo era vazado, visto, e as casas protegidas por pequenas grades — isso quando existiam grades — ou, mais frequentemente, por um alambrado que permitia ver os quintais das casas. Confesso: foi um choque ver como aquela rua, que era cheia da presença viva das crianças, estava agora quieta, sem vida, sem nada... Sem ninguém!

Os quintais não podiam mais ser vistos...

Havia ainda o resquício de um campinho que, outrora, era palco das mais diversas brincadeiras que fazíamos: esconde-esconde, pega-pega, balança-caixão... Palco de pernas e braços inquietos e olhares atentos no céu para a pipa que levava lá para o alto o nosso pequeno desejo de que, algum dia, seríamos adultos. Não que isso fosse lá a nossa preocupação naquele tempo, mas, hoje, recordo feliz que não precisávamos dessas preocupações.

Ali, naquela rua, naquelas casas, tudo inspirava a imaginação. Não éramos financeiramente ricos... Mas nossa riqueza era muito mais profunda. Tudo era e virava motivo de diversão: uma árvore se tornava nave espacial, um monte de areia se tornava uma cidade cheia de túneis escavados, pedaços de tijolo eram carros, caminhões, e tantos outros veículos... Mas, hoje, aquele quintal já não existe mais!

Ali, onde cabiam tantos universos inventados, tornou-se estéril, insosso, algo seco, duro, sem vida, sem graça, como se a nossa infância de outrora tivesse perdido todo e qualquer vestígio. As diversas árvores frutíferas, nas quais passávamos horas brincando, sumiram e nem deixaram sequer aquela sombra na qual encontrávamos nossos mundos. Parado ali, diante de tantos muros altos, com a metade do campinho tomada por uma rua com outras casas estranhas, veio ao meu entendimento um pensamento: o tempo não só passa, ele abre ainda mais a rua (que morria no campinho e que agora o atravessava), derruba aeronaves, castelos... memórias.

Por onde andariam meus vizinhos? Os meninos e as meninas da época em que moramos ali? Na casa da esquina, existia uma horta do pai de um dos meus amigos de infância. Pelo visto, já não existe mais a horta. Naquele terreno, outra casa foi erguida. Ainda me lembro de entrar naquela horta e comer tomate, pimentão, tudo cru... Sem tempero... E como eu gostava daquilo. Hoje, por que alguns legumes e frutas são indigestos?

Em outra casa, havia um certo quintal repleto de árvores frutíferas, das quais, particularmente para mim, destacava-se a goiabeira. Sempre amei goiabas! Ainda gosto muito, principalmente as vermelhas...

Em meio aquele concreto todo que aquela pequena viela havia se transformado, não seria mais possível sentir o cheiro da terra molhada pela chuva; com tantos muros altos, não dá mais para sentir os perfumes de um pão caseiro sendo assado, ou uma torta de frango, ou qualquer outro odor porque os quintais não existem mais.

Hoje, ali, só existe o silêncio. Não há sons, nem mesmo latidos de um cachorro. Com certeza, à noite, não se ouvem mais os grilos que procurávamos na escuridão... Não devem mais existir as gargalhadas ingênuas e altas da criançada porque duvido que existam crianças ali naquela rua. Aquelas risadas impregnadas de uma convicção sincera de que a vida jamais se acabaria!

Mas não encontrei mais nada disso ali. Não existe mais chão de terra, não existem árvores para sequer uma sombra, não há um varal balançando as roupas ao vento como bandeiras de países que inventávamos... O quintal, que era todo o universo, virou um pedaço de concreto que foi escondido por detrás de um muro alto e um imenso portão de ferro cinzento e triste. Um quintal que ficou vazio, lugar em que até o vento parece que não quis mais voltar e brincar, levantar nossas pipas, acariciar nossos rostos no calor e do suor de tantas brincadeiras que ali fazíamos.

Mas a esperança não decepciona e ainda acredito que esse quintal está aqui dentro de mim. A cada cheiro de terra molhada pela chuva, a cada brisa que entra pela janela do meu quarto e que acaricia meu rosto molhado pelo suor, não mais das brincadeiras, mas do calor insuportável dos dias... Sim! Ele ainda existe: nas minhas mais tenras e caras lembranças. Na mais sincera saudade do meu coração.

Crescer é assistir o desmontar silencioso dos lugares em que fomos felizes. Mas aprendi que dessa vida não levamos nada de material, e isso é verdade. Levamos as coisas que foram verdadeiramente importantes: o que vale a pena ser guardado na memória.

Eu entendi que os quintais não são eternos. Nada é! Mas as lembranças trazem sempre aquele gostinho de eternidade.

O quintal não existe mais? Sim! Firmemente nas minhas doces lembranças. E é isso que importa!