A Janela que nunca se fechava
14/10/2025 09:09 - Postado em Contos por Ghigo Medievo.
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Ninguém sabia quem havia construído aquela casa.
Ficava na chamada parte alta daquela cidade — nem bonita, nem feia, apenas cansada de ficar parada — e tinha uma janela que nunca se fechava. Chovesse, ventasse ou passassem pássaros curiosos, ela permanecia entreaberta, como se esperasse alguma coisa que o resto do mundo já havia esquecido.
Diziam que a casa era muda, mas a janela falava.
Falava pelos estalos da madeira, pelos rangidos de ferrugem e pelos suspiros que saíam dela ao entardecer. Havia quem jurasse ouvir risadas lá dentro — risadas leves, breves, como lembranças tentando escapar.
A moradora era uma mulher chamada Dona Celina, costureira por ofício e observadora por vocação.
Costurava vestidos e silêncios com igual delicadeza. Passava as tardes sentada diante da janela, com a agulha numa mão e o tempo na outra.
Quando alguém perguntava por que nunca a fechava, respondia simplesmente:
— Porque há coisas que só entram quando deixamos a fresta aberta.
Dona Celina vivia sozinha, embora jurasse que não. Dizia que a casa respirava com ela — o chão suspirava, as cortinas cochichavam, e o relógio da parede (que, por coincidência ou destino, também marcava três horas) batia apenas quando se lembrava.
Certa tarde, um vendedor de guarda-chuvas passou pela colina.
Era um sujeito falante, desses que acreditam que tudo pode ser consertado com conversa.
Ao ver a janela escancarada, chamou lá de fora:
— Dona, quer que eu ajeite essa dobradiça? Posso deixar isso fechando como novo!
Ela sorriu, sem levantar os olhos do tecido.
— Não precisa. A janela não está quebrada.
— Então por que nunca fecha?
— Porque se fechar, o vento não entra. E o vento traz lembranças.
O homem riu, sem entender, e seguiu seu caminho.
Na descida da colina, o vento soprou forte, quase levando um dos guarda-chuvas — que, dizem, nunca mais se abriu do mesmo jeito.
Com o tempo, as pessoas começaram a subir só para ver a tal janela.
Diziam que, se você ficasse quieto o bastante, podia sentir o ar mudar — como se o tempo, curioso, também pudesse espiá-la.
Certa noite, uma tempestade desabou.
O vento uivava, a chuva batia forte, mas a janela continuava firme, aberta, impassível.
No dia seguinte, encontraram a casa silenciosa e vazia.
Dona Celina, ninguém soube para onde foi.
Mas o curioso é que, desde então, a janela começou a fechar sozinha ao entardecer — abrindo-se de novo apenas quando o sol nascia.
O povo dizia que era o vento retribuindo a gentileza.
Outros, que Dona Celina apenas atravessara para o outro lado da fresta — o lado onde o tempo ainda costura memórias.
E, quando o sol batia no vidro, por um instante fugaz,
via-se refletida uma silhueta curvada,
costurando alguma coisa invisível,
com a luz do amanhecer servindo de linha.