O Último Banco da Praça

19/11/2025 00:11 - Postado em Contos por Ghigo Medievo.
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O Último Banco da Praça

Nunca entendi por que que certos lugares parecem guardar memórias melhor do que nós. A praça, com seu coreto esquecido e as árvores que se inclinavam como quem escuta segredos, fazia parte de uma coleção de lembranças que ele evitava tocar.

Eu voltava ali sempre que algo me afligia, como se aquele pequeno pedaço da cidade tivesse o poder de organizar as minhas confusões internas. Naquela tarde, de vento frio, enquanto eu caminhava pelos caminhos de pedra, vi algo que fez seus passos hesitar: era papai, sentado no último banco da praça.

Olhar pesaroso e pesado, curvado por já não aguentar os anos idos... E papai envelhecera de um jeito que não cabia na lembrança que eu mesmo ainda guardava (aquela lembrança rígida, inflamada por mágoas e ausência).

Só sei que ali me acheguei, nem mesmo um beijo ou saudação lhe dei, mas ali me sentei, ao seu lado...
Por alguns minutos, foi o silêncio que imperou.
Papai, de olhar contemplativo ao nada, e, eu, olhando aquele homem que era responsável por minha vinda ao mundo...
Em meus pensamentos furtuitos, o que mais se destacou: "Por que nunca nos demos bem?"... E o sabor? Era um misto de tristesa com ternura...

Papai, então, murmuro:
— Eu não sei como falar… Faz tanto tempo que ensaiei. Mas talvez agora… Talvez possamos falar como adultos.

A frase entrou em mim cortante, como um vento gélido, levantando poeiras que eu pensava, até então, estarem já sedimentadas. Apenas apoiei uma de minhas mãos em seu ombro e tentei um misto de carinho sem graça com "sei-lá-o-quê"... A conversa começou torta, áspera, como que duas peças de um quebra-cabeças imperfeito tentando se encaixar depois de anos afastadas.

Ele me falou de erros, de medos, de fugas.
E, pela primeira vez, de arrependimentos que nunca haviam tido voz e nem vez!

Meus olhos? Lacrimejaram! Meus lábios, se ressecaram e os dentes deram-lhes algumas mordidas um tanto quanto nervosas...

No final das contas, nada ficou resolvido... Mas algo ali se abriu!
Confiança? Talvez...
Só sei dizer que meu olhar para com aquele homem começou a mudar...

E, enquanto o sol se escondia atrás dos prédios antigos, percebi que eu estava crescendo... e que isso não era apenas em relação à uma linha do tempo: era sobre escolher em qual parte da história eu estava pronto para carregar e qual parte finalmente eu podia deixar para trás.