As Folhas do Outono

18/10/2025 00:53 - Postado em Contos por Ghigo Medievo.
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As Folhas do Outono

Quando o outono chegava, dona Cecília o reconhecia antes mesmo de vê-lo.
Não eram as folhas no chão que a avisavam — era o ar.
Havia uma mudança sutil, quase um murmúrio: o cheiro de terra fria, a brisa mais lenta, o som longínquo de um rádio antigo em alguma casa vizinha.
Era como se o tempo, cansado de correr, resolvesse andar devagar só para acompanhá-la.

Todas as tardes, ela saía com a vassoura de palha e varria a frente de sua casa. E, não contente, terminava varrendo toda a rua. Começava pela frente de sua casa e ia descendo.
Não havia pressa. O som das folhas sendo empurradas era um consolo, uma espécie de oração. Cada folha que caía parecia carregar um pedaço de vida — o riso do marido falecido há décadas, as vozes das crianças que já tinham crescido, o ruído das conversas de domingo ecoando pela varanda.

Os vizinhos diziam que era mania de velha.
Mas Cecília sabia: varrer as folhas era conversar com o passado sem precisar usar palavras.
E havia uma doçura nisso — em recolher o que o vento deixava para trás, como quem aceita o inevitável com elegância.

Lembrava-se, às vezes, de uma tarde antiga: o filho pequeno correndo pelo quintal, as mãos cheias de folhas secas.
— Mãe, olha! — ele dissera — o chão virou sol!
E ela rira, abraçando o menino, guardando aquela imagem como quem guarda um segredo luminoso.
Desde então, o outono sempre lhe parecera o tempo em que o chão se enche de sóis cansados.

Agora o menino morava longe. Mandava cartas, telefonava de vez em quando, prometia visitas. Mas o outono, esse ela passava sozinha. E não se queixava: aprendera que há solidões que são mais companhia do que ausência.

Naquele ano, o ipê da frente começou a perder as folhas mais cedo. Dona Cecília percebeu, com uma ponta de ternura, que até as árvores envelhecem com o tempo.
Mesmo assim, varreu o quintal com sua delicadeza habitual.
Quando o vento levava de volta as folhas que acabara de juntar, ela sorria — o vento também queria brincar.

Ao cair da tarde, sentava-se na cadeira de ferro, o corpo cansado, mas o olhar tranquilo.
O sol se dissolvia entre os galhos, e o quintal se tingia de ouro velho.
Cecília respirava fundo, e, por um instante, teve a impressão de que o mundo inteiro suspirava junto.

Antes de entrar, olhou o ipê uma última vez e murmurou:
— Pronto, meu velho. Por hoje, já nos entendemos.

E o vento, como quem responde a uma velha amiga, levou consigo a última folha do dia.