A Sombra que Chegava antes

14/10/2025 18:07 - Postado em Contos por Ghigo Medievo.
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A Sombra que Chegava antes

Havia, naquela pequena cidade, onde todos se conheciam, um homem que chamado José Benedito, embora ninguém soubesse se esse era realmente o seu nome ou apenas o modo mais prático de chamá-lo. Morava sozinho em um casebre, de paredes que pareciam segurar a respiração. Tinha o hábito de sair sempre à mesma hora, antes do amanhecer — e era nessa hora que o estranho acontecia.

Sua sombra chegava primeiro.

Antes mesmo de ele cruzar a porta, já se via o contorno escuro deslizando pela rua, como quem vai à frente para anunciar uma presença. A sombra de José Benedito não esperava o corpo: adiantava-se, impaciente, e se alongava pelos muros, pelas calçadas, pelas janelas ainda sonolentas da cidade.

A população da cidade estranhava, claro.
O dono do armazém, "Seu Ciro", benzia-se sempre que a via passar.
A costureira, "Dona Do Carmo", jurava que, certa vez, a sombra parara diante de sua vitrine e observara o próprio reflexo no vidro.
E uma criança — sempre as crianças — contou que ela piscara pra ele.
Ninguém acreditou, mas também ninguém quis provar o contrário.

José Benedito, por sua vez, parecia não se importar.
— Deixe-a — dizia, quando alguém o interpelava. — A sombra só quer viver um pouco por conta própria.

Havia nesse homem um modo sereno de aceitar o absurdo, como se já tivesse se acostumado a dividir o corpo com o inexplicável.
“Alguns têm gato, eu tenho sombra”, brincava, com um sorriso cansado.

Certa madrugada, a sombra não voltou.

José Benedito esperou. Ficou na soleira, olhando o chão vazio, como quem procura uma palavra que escapou da frase.
O sol nasceu, cresceu, se pôs — e a sombra não voltou.
Pela primeira vez, ele sentiu-se leve.
E, curiosamente, triste.

Nos dias seguintes, o vilarejo notou algo novo: as sombras começaram a se atrasar.
A do padeiro, Ariovaldo, por exemplo, chegava sempre depois da fornada.
A do padre Cláudio aparecia só na hora da bênção.
Até o relógio da Torre da Matriz — aquele das três horas — parecia projetar sua própria sombra com um pequeno atraso.

Alguns diziam que a sombra de José Benedito andava por aí, brincando com o tempo dos outros. Outros afirmavam tê-la visto debruçada na casa de Dona Celina, aquela que ficava na parte alta da cidade, tentando atravessar a janela que nunca se fechava.

Ninguém sabe ao certo o que aconteceu com José Benedito.
Mas há quem diga que, em certas manhãs sem vento, é possível ver duas sombras caminhando lado a lado pela estrada — uma à frente, outra logo atrás, como se estivessem finalmente de acordo sobre quem chega primeiro.

E, quando o sol se põe, por um instante breve,
ambas desaparecem juntas,
no mesmo compasso,
na mesma luz.