A Viúva do Relógio

15/10/2025 01:09 - Postado em Contos por Ghigo Medievo.
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A Viúva do Relógio

Dona Eulália morava sozinha numa casa cor de creme, com um portão que rangia como um velho reclamando do tempo, lá pelos lados da "parte alta" da cidade. Era meio que vizinha de Dona Celina, a costureira do "Bairro Alto". Desde que o marido partira — e já fazia oito anos —, ela conversava todas as manhãs com o relógio de parede da sala.

Era um relógio grande, de pêndulo, herança de casamento. Tocava de hora em hora, sempre um pouco atrasado. “Como o falecido”, dizia ela. “Nunca chegou a tempo de nada, mas sempre chegava.”

Dona Eulália passava o pano nos móveis, ajeitava as flores artificiais na jarra e, entre uma tarefa e outra, olhava o relógio com carinho desconfiado.

— Hoje o senhor atrasou três minutos, seu teimoso. É castigo ou saudade?

Para Dona Eulália: Saudade pura!

O relógio, impenetrável, respondia apenas com o balanço compassado do pêndulo, como quem concorda por educação.

Os vizinhos achavam graça. Seu Adão, que morava na esquina, às vezes passava e via a velha parada na sala, falando sozinha. Dizia-se que o tempo ali dentro tinha outro ritmo — talvez mais educado, talvez mais sentimental.

Certa tarde, o neto de Dona Eulália, o Dudu, veio visitá-la. Trouxe um celular novo e quis ensiná-la a ver as horas na tela.
— Olha, vó, é mais preciso. Não atrasa nunca.
Ela olhou o aparelho com a mesma curiosidade com que se olha um peixe fora d’água.
— E onde é que ele balança o pêndulo, coração? — perguntou.

O menino riu.
— O que é pêndulo, vó?
— Não interessa! — concluiu, com um sorriso sereno. — Qualquer relógio de verdade é aquele que pensa antes de marcar a hora.

Nos dias de vento, Dona Eulália dizia que o relógio cochilava. Nos dias de chuva, que ele chorava junto. E nas noites silenciosas, quando o tique-taque parecia preencher a casa inteira, jurava ouvir uma segunda batida — fraquinha, mas viva —, como se o falecido ainda respirasse dentro do tempo.

Um dia, o relógio parou. Sem aviso, sem drama, sem escândalos!
Apenas silenciou às três da tarde. (Alguém se lembrou do relógio da Torre da Matriz).
Dona Eulália não se assustou. Sorriu com uma ternura quase cúmplice.
— Enfim, cansou de me esperar.

Cobriu o relógio com um pano branco, fez café e sentou-se na varanda. O sol batia nas folhas da mangueira, e o vento brincava de espalhar lembranças.

Quando Seu Adão passou, ela acenou.
— O tempo foi embora, Seu Adão!
Ele olhou o céu e respondeu:
— Pois é… mas deixou as horas para trás.

E ficaram assim, os dois, olhando o entardecer como quem lê o último capítulo de um livro que não acaba — porque o tempo, na verdade, só muda de relógio.