O Relógio que parou às três

14/10/2025 08:51 - Postado em Contos por Ghigo Medievo.
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O Relógio que parou às três

“O tempo é o único relógio que nunca atrasa — somos nós que o apressamos.”
Autor desconhecido.


Ninguém sabia, ao certo, o dia em que o relógio da torre da Matriz havia parado.
Alguns juravam que tinha sido em uma terça-feira, quando o padeiro, distraído, deixou queimar uma fornada de pães. Outros, no entanto, afirmavam que fora em pleno domingo, justamente no instante do encerramento da reza do santo terço da misericórdia — o que conferia ao acontecimento uma ironia quase sagrada

Desde então, a cidade parecia respirar em outro ritmo.
As massas de pão não cresciam como antes, os alunos se perdiam na rotina, e o carteiro, já sem cartas a entregar, reclamava de atrasos imaginários. O relógio, soberano e imóvel, mantinha-se fiel às três horas em ponto, como se o tempo tivesse decidido, de súbito, fazer greve.

Passavam-se dias, até meses, e ninguém sabia dizer. Os moradores começaram a contornar a torre da Matriz como quem evita um assunto incômodo.
O relógio, agora silencioso, tornara-se um espelho incerto: refletia menos as horas e mais as inquietações de quem o observava.

Mas, eis que, em uma manhã sem pressa, um senhor de chapéu desbotado resolveu subir até a torre.
Todos os tratavam de "Seu Augusto", nome com o qual já tinha nascido em algum determinado outono.
Tinha o hábito curioso de conversar com as coisas: dizia que os bancos compreendiam o cansaço, as janelas sabiam guardar segredos, e os postes — ah, os postes — eram os melhores ouvintes do mundo. Se tudo isso era verdade, não se sabe, mas também não se sabe se era tudo mentira.

Poucos notaram quando ele desapareceu escada acima.
O vento carregava consigo o ranger dos degraus e o eco distante de um relógio que, embora parado, ainda parecia respirar.

Lá no alto, o ar cheirava a ferrugem...
O bom senhor limpou o vidro embaçado com o lenço e observou os ponteiros imóveis.
Por um instante, pensou ter visto o das horas estremecer — não em direção ao futuro, mas ao passado, como se o tempo, cansado de avançar, buscasse abrigo em si mesmo.

— Três horas — murmurou "Seu Augusto". — A hora perfeita para um descanso.

Quando desceu, tempos depois — minutos, talvez dias — trazia um sorriso leve, desses que não pedem explicação.
A "mulher do lanche" da praça o abordou, ansiosa:
— E então, consertou o relógio?
Ele respondeu:
— Não. Descobri que não estava quebrado.
— Como assim?
— Ele só se cansou de marcar o tempo pros outros.

A notícia espalhou-se pela cidade como o som dos sinos espalhado pelo vento.
Alguns riram, outros franziram o cenho, mas ninguém mais ousou tocar no relógio.
Aos poucos, o povo reaprendeu a medir o tempo pelos sinais da vida: o primeiro canto do galo, a sombra que encurtava ao meio-dia, o cheiro de pão que voltava ao entardecer.

Seu Augusto seguia seus passeios pela praça, sempre de chapéu, sempre distraído.
Às vezes parava diante da torre, olhava para o alto e cochichava alguma coisa.
Os mais curiosos juravam ouvir, entre o sussurro do vento, um tênue tic-tac vindo de dentro das nuvens.

O tempo, afinal, nunca tinha parado.
Apenas aprendera a andar devagar — como quem, pela primeira vez, resolve chegar na hora certa.

O tempo é o único personagem que nunca precisa ser apresentado — está sempre presente, mesmo quando finge ausência. Escrevi este conto pensando nos relógios internos que todos carregamos: uns adiantados, outros cansados, e alguns que, como o da torre da Matriz, só querem parar um pouco para ouvir o som das nuvens.