Seu Adão e o Soprador de Folhas
15/10/2025 00:53 - Postado em Contos por Ghigo Medievo.
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Seu Adão morava na esquina da Rua da Existência com a Avenida Bom Senso, bem em frente à praça em que a prefeitura insistia em varrer todos os dias, mesmo sabendo que o vento — esse eterno rebelde — se encarregava de desarrumar tudo antes do pôr do sol.
Seu Adão acordava cedo, tomava um café preto e abria a janela para vislumbrar o espetáculo diário das folhas que caiam com olhar desafiador. Tinha, por hábito, dizer que eram os pensamentos das árvores, cansadas de pensar alto.
Naquela manhã, um novo personagem apareceu na praça, ali, na frente da Igreja Matriz: era rapaz, que usava boné, fones no ouvido e um soprador de folhas que rugia como um pequeno furacão. O ar se encheu de poeira, redemoinhos, e um certo incômodo metafísico.
Seu Adão observou a cena, bebericando seu café, como quem assiste a uma discussão entre Deus e o vento. O soprador ia de um lado pro outro, empurrando as folhas sem nunca se livrar delas por completo. Era como tentar organizar o tempo com uma vassoura elétrica.
Depois de alguns minutos, o homem não resistiu. Chamou o rapaz pelo portão:
— Ei, moço! Essas folhas aí... pra onde é que o senhor pretende levá-las?
O rapaz, meio sem entender, tirou o fone.
— Pois não?
— As folhas. Tão indo pra onde?
O rapaz riu e deu de ombros.
— Pra lugar nenhum, seu Adão. Só tô limpando.
Seu Adão coçou o queixo, pensativo.
— Ah... pensei que fosse um ofício mais filosófico.
O rapaz, que tinha dado de ombros, ligou o aparelho e seguiu com o vento artificial.
Seu Adão ficou olhando aquele esforço circular, um tanto comovido com a cena. Parecia ver a humanidade inteira ali — tentando dar sentido às próprias folhas de suas, varrendo o que o tempo insistia deixar cair.
No fim da tarde, quando o soprador se calou e o silêncio retomou o ar, Seu Adão saiu com sua xícara de café e olhou a praça novamente. As folhas estavam de volta, exatamente onde sempre estiveram.
Sorriu.
— O vento tem mais paciência que a gente.
E, com essa conclusão modesta, voltou pra dentro, certo de que o mundo continuava girando — mesmo que um pouco mais cheio de folhas.